terça-feira, 26 de abril de 2011

O que é ser militante?

Ser militante é assumir o papel que o diretor lhe designou nesta novela chamada vida. Ser militante é saber que todos têm posição - entendendo que você enxerga o mundo de uma fração dos 12.756 quilômetros de diâmetro do planeta, não podendo vê-lo por inteiro, mas sabendo que o inteiro existe.
Ser militante é entender que quem está lá em cima não quer descer e quem tem fome quer comer. Ser militante é saber que alguém errou a equação no vestibular chamado humanidade, dando muito para poucos e pouco para muitos.
Ser militante é saber que a prerrogativa do mundo dos fortes foi criada por alguém cego, que nunca enxergou que todos têm fraquezas e forças. Ser militante é saber que a máquina que exclui foi criada pelos privilegiados e que o privilégio é fruto do desabono de alguém.
Ser militante é saber que existem maiorias e minorias dentre muitas possibilidades de diferença, seja étnica, religiosa, por gênero, por sexualidade, por nacionalidade, por faixa etária, dentre muitas outras, mas entender que a diferença entre o militante e o não militante é saber que a única diferença insalubre é a diferença social, aquela que faz um terço da população mundial não dormir porque tem fome.
Ser militante é saber que o preconceito é a pior doença do homem, a arma que a infelicidade criou para combater a felicidade, a arma que a injustiça criou para combater a justiça, a falha da máquina que era para ser perfeita.
Ser militante é saber que quem ou o quê nos criou, independente da crença, nos fez iguais, e que sexo, cor, preferência sexual, raça e qualquer outro fator não alteram, em nada, a capacidade, o caráter e a importância de cada ser humano.
Ser militante é ser poeta, operário, escultor, esportista, estudante, aposentado, músico, empreendedor, sindicalista, jornalista, escritor, engenheiro, professor, de todos os segmentos e profissões, porque ser militante é participar do todo que se chama humanidade.
Ser militante é ter preferência pela palavra universalização, porque ela significa extensão de tudo para todos, um mundo universal é onde nenhum processo é excludente. Ser militante é saber que todos os recursos do planeta e todas as invenções da humanidade devem ser de usufruto de todos.
Ser militante é cantar uma ode à alegria, é gostar de justiça, mas sem precisar ser justiceiro, é respeitar o planeta terra, preservando-o. Ser militante é enxergar em todos os seres humanos - um semelhante, desejando que as mesmas conquistas que deseja para si se estendam a todos.
Ser militante é viver o presente, é lutar, é vibrar, é chorar, é vencer, é perder, é recomeçar, é ir até o fim, é ter utopias, é acreditar nas qualidades da humanidade e dar sentido a tudo.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Lançamento da campanha “Banda larga é um direito seu!”

PNBL: Um passo importante
Na guerra da comunicação, o dia D será quando a regulamentação da mídia for aprovada, porém, como em toda guerra, existem batalhas preliminares a priori da batalha final, e a batalha da vez é pelo arranque do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL).
O PNBL foi lançado em 2010 e refletiu em um importante passo rumo à democratização da comunicação. Mas, como em todas as conquistas dos últimos 8 anos, a sociedade civil – através dos movimentos sociais -, deverá estabelecer uma estratégia de cobranças a fim de garantir que os avanços prometidos ocorram no prazo estipulado.
Segue abaixo as principais prerrogativas do PNBL:
  • Acelerar a entrada da população na moderna Sociedade da Informação;
  • Promover maior difusão das aplicações de Governo Eletrônico e facilitar aos cidadãos o uso dos serviços do Estado;
  • Contribuir para a evolução das redes de telecomunicações do país em direção aos novos paradigmas de tecnologia e arquitetura que se desenham no horizonte futuro, baseados na comunicação sobre o protocolo IP;
  • Contribuir para o desenvolvimento industrial e tecnológico do país, em particular do setor de tecnologias de informação e comunicação (TICs);
  • Aumentar a competitividade das empresas brasileiras, em especial daquelas do setor de TICs, assim como das micro, pequenas e médias empresas dos demais setores econômicos;
  • Contribuir para o aumento do nível de emprego no país;
  • Contribuir para o crescimento do PIB brasileiro.
Como resultado da I Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM), o plano tem suas deficiências, mas não se pode negar que se trata de um tremendo avanço.

Hoje a banda larga é cara, lenta e para poucos, e precisa ser universalizada e qualificada em nosso país, por isso que o projeto prevê investimentos em infra-estrutura, além dos subsídios para baratear o serviço.
Com toda população tendo acesso à internet, as metodologias educacionais se multiplicam, e a revolução que todos esperamos em todos os níveis começa ficar mais tangível e a guinada rumo à regulamentação da mídia começa ficar mais nítida.

Blogueiros, ativistas da cultura digital, entidades de defesa do consumidor, sindicatos e centrais sindicais, ONGs e demais segmentos da sociedade civil estão organizados pela campanha “Banda larga é um direito seu!”, em prol de fomentar os avanços propostos pelo governo.
O lançamento nacional ocorrerá em São Paulo, Rio de Janeiro, Campo Grande, Salvador e Brasília. Segue agenda:
SÃO PAULO (SP) – 19h
Sindicato dos Engenheiros de São Paulo
Rua Genebra, 25 – Centro (travessa da Rua Maria Paula)
RIO DE JANEIRO (RJ) -
19h: início da atividade plenária – 20h30: lançamento da campanha
Auditório do SindJor Rio
Rua Evaristo da Veiga, 16, 17º andar
SALVADOR (BA) – 19h
Auditório 2 da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia
Avenida Reitor Miguel Calmon s/n – Campus Canela
CAMPO GRANDE (MS) – 19h30
Sede da Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul)
Rua 26 de agosto, 2269 – Bairro Amambai
BRASÍLIA (DF)
20h – Balaio Café
CLN 201 Norte, Bloco B, lojas 19/31
 O manifesto da campanha, a lista de participantes e o plano de ação estão no site www.campanhabandalarga.org.br Participe.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Mais um aumento na taxa de juros

Em mais uma reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária) foi decido que a taxa SELIC (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) seria elevada, desta vez para 12%, resultando em um aumento de 0,25%.
Trata-se do terceiro aumento no governo Dilma, algo que incomodou muito as correntes progressistas que elegeram a presidenta, pois a ação de controlar a inflação pelos juros é considerada uma medida ortodoxa de macroeconomia.
De fato é, mas precisamos fazer uma leitura fria da situação para tentarmos entender, da maneira mais fundamentada possível, o que está levando a equipe do Banco Central (BC) e seu presidente, Alexandre Tombini, decidirem por tal medida.
Eu continuo acreditando no espectro progressista da presidenta, e tento partir deste prisma para analisar esta medida, acreditando que a “independência” do Banco Central não existe mais, desde a saída do ex-presidente Henrique Meirelles.
A taxa de juros do Brasil continua sendo a mais alta do planeta, e o capital especulativo é deveras interessado pelo aumento da mesma, pois assim este retém mais dinheiro e aumenta os lucros.
O BC acredita que a inflação irá cair naturalmente a partir de maio, pois a economia está em notável queda de crescimento, e assim poderá retomar a política de redução da taxa de juros.
A presidente Dilma declarou recentemente que já é possível vislumbrar uma taxa de juros próxima das praticadas nos países desenvolvidos, porém, reiterou que isto não é para amanhã.
O ponto é que devemos pensar que enquanto a elevação da taxa de juros for a única medida de controle de inflação, deve ser praticada. O que devemos cobrar: é a mudança na política macroeconômica brasileira, mudança esta - que a presidenta já disse ser possível.
Não podemos entrar no discurso dos liberais, os defensores do consenso de Washington. Acredito que as mudanças na política macroeconômica virão a partir de 2012, haja vista que o primeiro ano de um mandato não é (e nunca foi) terreno fértil para grandes mudanças.
Inflação alta é impacto direto nas rendas mais baixas, então deve ser controlada com unhas e dentes. Vou aguardar 2012, e caso nenhuma mudança ocorra, irei externar minha insatisfação neste aspecto.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Depoimento do José Dirceu para novela Amor e Revolução

O ex-presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) de São Paulo, ex-ministro da Casa Civil e ex-Deputado Federal, José Dirceu, gravou, há cerca de um mês atrás, seu depoimento para a novela Amor e Revolução do SBT, depoimento este que foi exibido ontem (20).
 No depoimento exibido, Dirceu relatou sobre o famoso Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) realizado na cidade de Ibiúna em 1968, onde cerca de mil estudantes foram presos. O ponto alto de seu depoimento foi a citação do ex-presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), Antonio Ribas, que foi assassinado na guerrilha do Araguaia.




 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lançamento da FrenteCom

A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular (FrenteCom) foi lançada ontem (19) no auditório Nereu Ramos na Câmara Federal. Principal idealizadora do projeto, a Deputada Luiza Erundina foi eleita coordenadora-geral, por unanimidade, pelos membros da comissão.
Estiveram presentes na audiência de lançamento: a presidente da Frente Parlamentar Mista da Cultura, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ); a presidente da Comissão de Educação e Cultura, deputada Fátima Bezerra (PT-RN); a secretária de Comunicação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Rosane Bertotti; o representante da Associação dos Jornais do Interior de São Paulo (Adjori-SP), Carlos Baladas; o líder do Psol, deputado Chico Alencar (RJ); e o deputado Emiliano José (BA), representando a liderança do PT.  


A FrenteCom tem como principal objetivo, fomentar o debate entre sociedade civil, governo e legislativo, sobre à regulamentação da mídia no Brasil, assim como combater qualquer fator que possa ser empecilho no pleno exercício do direito da liberdade de expressão dos cidadãos brasileiros.
A lei que vigora a regulamentação da mídia no Brasil foi criada em 1962, e muitas coisas mudaram em quase 50 anos, por isso, a discussão sobre a regulamentação da mídia faz-se muito necessária, pois o Brasil está no caminho adverso em detrimento aos países que há tanto tempo modernizaram sua regulamentação midiática, como países europeus, ou países sul-americanos que regulamentaram recentemente, como a Argentina por exemplo.
Regulamentar a mídia na atual conjuntura é assegurar aos mais de 190 milhões de brasileiros, o pleno direito do acesso à comunicação.
A FrenteCom divulgou um manifesto expondo as principais bandeiras que irá defender.
                              Manifesto
                                    
“A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação é uma iniciativa de membros da Câmara dos Deputados, em parceria com entidades da sociedade civil, que visa a promover, acompanhar e defender iniciativas que ampliem o exercício do direito humano à liberdade de expressão e do direito à comunicação.

O direito à liberdade de expressão, previsto no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos artigos 5º e 220 da Constituição Federal, enfrenta hoje dois tipos de obstáculos que justificam e reforçam a necessidade desta Frente Parlamentar.

O primeiro está na existência de ações de órgãos do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário e de entes privados que visam a cercear o exercício dessa liberdade pelos seus beneficiários, ou seja, os cidadãos e cidadãs brasileiros. É preciso que se tomem iniciativas e se criem mecanismos permanentes, inclusive no âmbito do Parlamento, para denunciar e combater esse tipo de ação.

O segundo obstáculo está na ausência de regulação e políticas públicas que promovam e garantam a liberdade de expressão e o direito à comunicação. Hoje, as condições para o exercício dessa liberdade são muito desiguais, já que os canais de mídia, elementos-chave para a efetivação desse direito, estão nas mãos de alguns grupos econômicos cuja prática impõe sérios limites à efetivação da liberdade de expressão do povo brasileiro e é fortemente marcada pela prevalência de interesses privados em detrimento do interesse público. Portanto, não basta denunciar e combater ações contrárias à liberdade de expressão; é preciso propiciar meios para que todos os cidadãos e cidadãs tenham condições de exercê-la. Assim, enquanto houver dificuldades ou impedimentos econômicos, culturais, sociais, técnicos e políticos para o exercício deste direito, é dever dos Poderes Executivo e Legislativo desenvolver ações no sentido de garantir que o maior número de cidadãos possa produzir, disseminar e acessar informações e cultura.

De outra forma, a promoção dos direitos à liberdade de expressão e à comunicação é condição para o pleno exercício da democracia no país. Se os meios de comunicação são os principais instrumentos de circulação de ideias e valores na sociedade brasileira, espaço essencial de consumo de informação e cultura pelos cidadãos e cidadãs, devem então refletir a pluralidade e a diversidade da sociedade, pré-requisito da verdadeira democracia.

A realidade dos meios de comunicação mudou muito nas últimas décadas, especialmente pelo surgimento da internet e a efetivação da convergência digital, nos seus aspectos técnico, comunicacional e empresarial. Com a mudança dessa realidade, alteram-se também os obstáculos, e, por sua vez, requerem-se respostas adequadas a esse novo cenário. Hoje, pensar a universalização do acesso à internet, por exemplo, é tão essencial à liberdade de expressão e ao direito à comunicação, quanto o é à promoção da diversidade de conteúdo no rádio e na televisão.

A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação reúne parlamentares e organizações da sociedade civil comprometidos com valores democráticos e se propõe a atuar tendo como base os objetivos acima referidos, observando a complementaridade, indivisibilidade, interdependência e não hierarquização dos direitos humanos. Assim, ela reconhece, conforme prevê o artigo 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, que o exercício da liberdade de expressão está sujeito a responsabilidades ulteriores (ou seja, a posteriori), especialmente quando o que foi dito representar violação de outros direitos humanos. Essa condição não deve criar precedentes para nenhum tipo de censura prévia, seja ela governamental ou judicial, mas precisa ser observada no sentido de proteger a dignidade da pessoa humana, especialmente a de grupos vulneráveis como crianças e adolescentes, mulheres, negros e negras, indígenas, população LGBTT e pessoas portadoras de deficiência.

A atuação da Frente se baseia em iniciativas já em curso no Congresso Nacional e em novas ações propostas por seus integrantes, levando em consideração estudos anteriormente realizados por comissões da Câmara e do Senado e propostas elaboradas por entes de todos os setores da sociedade civil, sobretudo as aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação.

Entre os objetivos específicos da Frente Parlamentar estão, sem prejuízo de outros, os seguintes:

defender os princípios constitucionais relativos ao tema, especialmente aqueles previstos nos artigos 5º e 220 a 224 da Constituição Federal;

lutar contra qualquer tipo de ação direta ou indireta de censura prévia de caráter governamental ou judicial;

contribuir para a regulamentação dos artigos 220, 221 e 223 da Constituição Federal, que tratam da proibição de monopólios e oligopólios no rádio e na TV;

da existência de mecanismos de defesa contra programações que violem os dispositivos constitucionais;

da preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas no rádio e na televisão;

da regionalização da programação e do estímulo à produção independente e da complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal;

defender a ampliação do acesso da população à banda larga, garantindo a universalização do serviço, preços acessíveis e qualidade do serviço ofertado;

trabalhar pela liberdade na internet, tendo como parâmetros a proteção à neutralidade de rede e ao direito à privacidade e à liberdade de expressão;

defender a ampliação da participação popular no acompanhamento e regulação do sistema de comunicações;

defender transparência, regras e procedimentos democráticos em outorga e renovação de concessões, permissões e autorizações de rádio e TV;

contribuir para o fortalecimento do sistema público de comunicação, inclusive rádios e TVs comunitárias;

defender os direitos de grupos vulneráveis como crianças e adolescentes, mulheres, negros e negras, indígenas, população LGBTT e pessoas portadoras de deficiência, no tocante às questões de comunicação;

defender políticas de incentivo à pluralidade e à diversidade em todos os meios de comunicação, com especial observância à diversidade regional e cultural brasileira;

incentivar a produção, distribuição e acesso a conteúdo produzido no Brasil por empresas e organizações brasileiras;

contribuir para o fortalecimento de pesquisa e adoção de tecnologias nacionais nas diversas etapas da cadeia produtiva das comunicações;

estimular medidas que fortaleçam a educação para a prática e a leitura da comunicação, de maneira formal e informal, entre os estudantes do ensino fundamental e médio.

A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação coloca-se, assim, como um instrumento do parlamento e da sociedade civil brasileira para a ampliação do exercício desses direitos e para o fortalecimento da democracia.”

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Nome da Rosa

Para iniciar meus comentários sobre cinema neste blog, decidi começar por um filme que tenho extrema afeição, em todos os aspectos, cinematográficos, históricos e literários.
Vou começar pelo roteiro, que é uma adaptação do romance do escritor, filósofo, lingüista e bibliófilo italiano Umberto Eco. O romance O Nome da Rosa foi lançado em 1980.
Na sétima arte, a obra ganhou adaptação em 1986 – sob a direção de Jean-Jacques Annaud, o mesmo diretor de Círculo de Fogo (2001) e produção e distribuição dos estúdios Warner Home Vídeo.
Roteiro   
A história se passa na última semana do ano de 1327, em uma abadia beneditina da Itália medieval, onde 7 monges morrem misteriosamente e o abade, preocupado, recorre aos franciscanos e aos inquisidores para enfrentar o suposto “mistério”.
Um monge fransciscano renascentista, William de Baskerville, e seu aprendiz, Adso de Melk, são os protagonistas da história.  Os dois chegam ao mosteiro antes que os inquisidores, e começam trabalhar pela resolução do mistério.
Enfrentando diversos embates ideológicos corriqueiros da vida eclesiástica da época, os dois encontram um mosteiro repleto de monges corrompidos e hipócritas clássicos da corrente beneditina.
A história também explana sobre as diversas correntes filosóficas que atuavam na igreja católica no século XIV, colocando os franciscanos como heterodoxos em detrimento à ortodoxia dos beneditinos.
Temas como o homossexualismo, celibato, luta de classes são expostos no decorrer da trama, porém, o grande mote está na biblioteca do mosteiro, que no romance de Eco era retratado como a maior de todos os mosteiros beneditinos.
A biblioteca representa o conhecimento que o renascimento estava resgatando na época, e os beneditinos mais ortodoxos do mosteiro, incomodados com os estudos de certos monges, acabaram optando por tomar medidas pragmáticas para conter aqueles, que com sede de conhecimento, representavam o perigo. Deste modo, a biblioteca foi escondida e somente as obras “autorizadas” ficavam disponíveis para os monges.
A obra que Eco escolheu para simbolizar a libertação do teocentrismo para o renascimento, foi a Arte Poética de Aristóteles, focando no seguinte trecho: “Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade.”
Representando uma afronta à escolástica, o bibliotecário colocou veneno nas páginas do livro de Aristóteles e com isso, condenou todos aqueles que ousaram ler a obra.
O monge franciscano descobre o plano, porém, os inquisidores atrapalham-no e por pouco, a igreja não mata inocentes para ocultar as mortes causadas pela sua própria política de supressão intelectual da época.
Comentário
Um filme sempre perde a meticulosidade romancista de uma obra literária, porém, filmes como O nome da Rosa preservam a mensagem filosófica e as principais emoções através das características do cinema.
Com uma boa qualidade de produção, o filme não perde em quase nada aos filmes conceituais e épicos lançados em tempos recentes, haja vista que o mesmo completa em 2011 – 25 anos desde o lançamento.
O texto se dá numa narrativa, onde o narrador é o aprendiz, Adso de Melk, e em certo momento da história, o mesmo apaixona-se por uma camponesa – que fora acusada de bruxa pela inquisição -, e no final, ele relata sua paixão, dizendo que ela fora sua única paixão carnal, porém, ele nunca soube seu nome. Será o nome da rosa?

Trailer do filme (sem legenda):




“Do único amor terreno da minha vida não sabia, e jamais soube, o nome.”
                           Adso de Melk

sábado, 16 de abril de 2011

O sapo e o príncipe

O jornalista Paulo Markun lançou em 2004 a obra “O Sapo e o Príncipe” em alusão às ascensões à presidência da república dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (FHC ou Farol de Alexandria) e Luiz Inácio Lula da Silva (Nunca Dantes ou “O Cara”).

Fernando Henrique Cardoso é o príncipe, por sua suposta robustez intelectual devido à sua formação na famigerada Sorbonne em sociologia, e Lula é o sapo, por sua formação pouco adequada aos moldes de todos que ocuparam a cadeira da principal mesa do Palácio da Alvorada, tendo como profissão a função de torneiro mecânico.
Muitos se alegraram com a obra de Mankun e adoram até hoje chamar o ex-presidente Lula de sapo. Porém, quem mais sofreu com tal título foi FHC, que aparentando uma espécie de Complexo de Estocolmo, não conseguiu se desvincular no título.
O grande problema é que o sapo foi beijado pela princesa e hoje também é príncipe, e deste modo o príncipe mais velho sente-se obrigado a disputar a hegemonia do principado com seu contemporâneo.
Brincadeira a parte, é mais ou menos deste modo que vejo a atual posição de Fernando Henrique Cardoso, do príncipe que perdeu sua autenticidade e tem de disputar espaço com aquele que não passava do candidato da esquerdalha.
Hoje Lula é o ex-presidente que ostenta o título de presidente mais bem sucedido em termos de bons resultados e popularidade, o que é óbvio, pois faz parte do mesmo sistema onde uma coisa leva a outra.
Fernando Henrique Cardoso assistiu no ano passado Lula fazer o que ele não conseguiu: eleger seu sucessor, e está assistindo, em idade avançada, seu partido perdido sem rumo e programa a apresentar para o país, e muito longe da social democracia que o nome carrega.
Sentiu-se na obrigação, que tinha de fato, de iniciar a retomada pela re-construção da oposição, já que o discurso salvador – aquele que Aécio Neves proferiu -, não surtiu o efeito desejado, e por meio de um artigo, iniciou o ataque, com alvo definido: o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores. 
O artigo teve a repercussão desejada, porém, não se sabe se surtiu o efeito político desejado. O que se sabe que Fernando Henrique foi sincero como poucas se viu, e não se incomodou de tornar público as reais estratégias, aquelas que ele considera ideais, ao seu partido e a oposição.
A imprensa simpática à causa do príncipe carente deu ao artigo o patamar político esperado pelo autor, colocando referência sobre o mesmo na capa do jornal. Apesar disto, não se pode negar que o velho príncipe é provido de inteligência.
Fernando Henrique abusou de sua retórica e em um quilométrico artigo, tentou reascender o ímpeto oposicionista que a direita brasileira perdeu depois das eleições de 2010, pois não consegue encontrar um discurso de embate ao discurso aprovado por 87% da população brasileira.
A grande síntese do artigo foi o parágrafo: “Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias”.

Neste parágrafo, o velho príncipe procura desabonar a relação estabelecida pelo governo Lula com os movimentos sociais e justificar a incapacidade do seu partido e de sua base em dialogar com o povo, desmerecendo o próprio povo. A humildade falta-lhe de modo exacerbado, culpa o Brasil e não o partido que não consegue criar qualquer bandeira popular, que não tem nenhum negro em suas inserções na televisão, um partido que não retrata o Brasil.
No parágrafo a seguir, o ex-aluno da Sorbonne conclama seus correligionários para reflexão: “Sendo assim, dirão os céticos, as oposições estão perdidas, pois não atingem a maioria. Só que a realidade não é bem essa. Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas a TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe c” ou de nova classe média”.

Nesta análise, o velho príncipe está supondo que a classe ascendente ao nível médio, que conseguiu sua ascensão no governo Lula, está carente ideologicamente e à espera de propaganda política. Um erro histórico, pois a aprovação no final do mandato do ex-presidente Lula mostra que o povo reconhecia os méritos.
Marcando a boiada: “Digo imprecisamente porque a definição de classe social não se limita às categorias de renda (a elas se somam educação, redes sociais de conexão, prestígio social, etc.), mas não para negar a extensão e a importância do fenômeno. Pois bem, a imensa maioria destes grupos – sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista – está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc.”.

Neste parágrafo, o velho príncipe mostra-se discípulo de Maquiavel e com a frieza habitual, traça o perfil, mostrando onde está a massa de manobra a perseguir. As eleições mostraram que na internet, como nas ruas, não são as empresas que resolvem, mas a militância, e o perfil dos tucanos não é de combatividade. Vale a ressalva que isto nada mais é que uma convocação de guerra na internet.
“Seres humanos não atuam por motivos meramente racionais. Sem a teatralização que leve à emoção, a crítica – moralista ou outra qualquer– cai no vazio. Sem Roberto Jefferson não teria havido mensalão como fato político”.

Chego a dizer que após este parágrafo, o velho príncipe não ganha mais nenhuma eleição, nem para sindico. A frieza com que o mesmo analisa a política, as estratégias, não são de um social democrata, mas de um sujeito totalmente moldado à direita. Ele chama o povo de massa de manobra, e convida seus amigos para uma estratégia fascista.

Em suma, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cometeu suicido político, pois minou qualquer possibilidade dele fomentar uma relação com qualquer movimento social. Para os progressistas, que sirva de atenção, principalmente na internet, onde uma nova estratégia deverá surgir em breve. Complexo de Estocolmo tem cura?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Uruguai anula lei que anistiava crimes da ditadura

Reproduzo aqui o artigo da Luciana Bertola do Jornal Página 12
O Senado uruguaio aprovou na noite desta terça-feira o projeto interpretativo que anula a Lei da Caducidade. Durante 25 anos, essa norma impediu que fossem julgados os responsáveis por sequestros, torturas, desaparecimentos e assassinatos cometidos durante a ditadura que governou o país entre 1973 e 1985. Os opositores Partido Nacional e Partido Colorado votaram contra a iniciativa promovida pela Frente Ampla, que governa o país. Mas também houve discrepâncias dentro das fileiras dessa coalizão de centroesquerda. O histórico militante tupamaro Eleuterio Fernández Huidobro submeteu-se à disciplina partidária e votou a favor do projeto, mas anunciou que renunciava à sua cadeira.

A sessão começou por volta das 10 horas da manhã e se estendeu até tarde da noite, quando a Frente Ampla fez valer seus 16 votos frente aos quinze da oposição. Independentemente de sua cor partidária, a maioria dos senadores tinha algo a dizer a respeito da Lei de Caducidade que, desde 1986, impede que os repressores uruguaios sejam julgados. Há tempo que a lei ocupa o centro da discussão política no Uruguai. Um debate acalorado que divide aqueles que se manifestam a favor de extirpá-la do ordenamento jurídico do país e aqueles que querem mantê-la, alegando que foi ratificada pela cidadania em dois plebiscitos.

O Senado respirou esse clima. Pelo governo, coube ao senador Oscar López Goldaracena, um conhecido jurista e ativista dos direitos humanos, quebrar o gelo. “Esta Câmara tem a possibilidade de começar a corrigir o erro político de aprovar uma lei que ampara a impunidade de criminosos de lesa humanidade, removendo a carga que pesa sobre a sociedade uruguaia”, disse o advogado que representa o Movimento Independente pelos Direitos Humanos, na Frente Ampla. López Goldaracena observou que era importante eliminar os efeitos da Lei de Caducidade para evitar que as atrocidades perpetradas pelos militares voltem a se repetir.

Mas nem tudo foi uma postura uniforme dentro da coalizão de centroesquerda. Desde que foi aprovado na Câmara de Deputados, em outubro de 2010, o projeto estava paralisado no Senado, onde três senadores governistas se negavam a acompanhar a iniciativa de seu bloco. Em março, a Frente Ampla conseguiu destravar a situação e alcançou os votos necessários para aprovar o projeto. No entanto, os senadores dissidentes seguiram expressando sua divergência. O ex-vice-presidente Rodolfo Nin Novoa deixou da sessão e fez entrar seu suplente que votou a favor da Frente Ampla. O legislador frenteamplista Jorge Saravia se manteve firme em sua postura de não apoiar a iniciativa para interpretar a Lei de Caducidade e denunciou que se tratava de um “disparate jurídico”.

Mas a novidade do dia ficou por conta do ex-tupamaro Fernández Huidobro, que renunciou a sua cadeira porque teve que obedecer a determinação de votar a favor da iniciativa. “Diz-se com razão, dentro de nossa força política, que é preciso acatar a vontade da maioria. Acreditamos nisso e por isso estamos acatando a determinação e votaremos pela disciplina. Mas o povo também foi maioria duas vezes”, disparou, referindo-se aos plebiscitos de 1989 e de 2009, quando a maioria da sociedade se negou a anular a Lei de Caducidade. O presidente José Mujica foi à noite até o escritório de Huidobro e expressou sua solidariedade.

Pelo Partido Nacional, o primeiro a fazer uso da palavra para protestar contra a iniciativa governista foi o senador Francisco Gallinal. “Longe de ser interpretativa, esta lei é “inovativa”, reclamou. “Não votamos nela porque há dois pronunciamentos populares neste sentido. Esse é um argumento formal que, na nossa avaliação, é muito importante”, disse Gallinal ao jornal Página/12. “Entendemos que esta proposta traz grandes problemas para a sociedade, já que significa transportar toda a questão ao Poder Judiciário”, acrescentou. Gallinal invocou novamente o Pacto do Clube Naval, de 1984, quando as principais forças políticas e os militares no poder negociaram a abertura democrática. “Este projeto interpretativo rompe o equilíbrio que permitiu a solução institucional de 1985, quando duas anistias foram aprovadas: uma para os militares e outra para os presos políticos tupamaros”, assinalou o político conservador.

Os organismos de direitos humanos, as organizações estudantis e de trabalhadores fizeram pouco caso dos argumentos dos partidos tradicionais. Desde as galerias do Senado, alguns seguiram de perto a movimentação dos senadores. Outros ficaram do lado de fora escutando o debate transmitido por alto falantes. Todos concordaram que o dia de ontem foi um dia para celebrar. Mas sabem que ainda falta caminho percorrer até que a Câmara de Deputados ratifique, no dia 4 de maio, o projeto aprovado ontem pelos senadores.

“O Uruguai vai se colocar em uma boa posição no que diz respeito à proteção dos direitos humanos frente à comunidade internacional. Após quase meio século de existência desta lei, com a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo caso Gelman e com esta resolução aprovada hoje, estão nos dando a razão. Isso também demonstra ao movimento popular que a perseverança e a luta da sociedade terminam dando resultados”, ressaltou Raúl Olivera, da central operária PIT CNT. O Serviço de Paz e Justiça (Serpaj) foi mais cauteloso na hora das celebrações. “Nunca apeamos o cavalo da anulação. Não conseguimos. Certamente que apoiamos e acreditamos que é preciso fazer todo o necessário para acabar com a impunidade. O Estado não pode seguir sem dar respostas ao que disse a Corte Interamericana, que apontou a Lei de Caducidade como um obstáculo para a Justiça. Para nós, não é a melhor saída, mas é preciso seguir avançando no Nunca Mais e para que estas coisas sejam solucionadas”, afirmou Ana Aguerre.

Já a Associação de Ex-Presos Políticos do Uruguai definiu o dia de ontem como uma jornada de emoções. “Para nós, a anulação da Lei de Caducidade é uma das razões fundamentais de nossa luta. Estamos exigindo isso há muito tempo para que se investigue o que ocorreu com nossos companheiros desaparecidos e para que os torturadores sejam julgados, abrindo-se, assim, o caminho para conhecer a verdade”, disse Julio Martínez.

Tradução: Katarina Peixoto

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ceticismo moderno

Richard Popkin
Tradução de Jaimir Conte

O ceticismo moderno surgiu no séc. XVI com o renascimento do conhecimento e do interesse pelo antigo ceticismo pirrônico grego, que surge nos escritos de Sexto Empírico, e do ceticismo Acadêmico, apresentado em De Academica, de Cícero. O termo “cético” não foi usado na Idade Média e foi inicialmente apenas transliterado do grego. As obras de Sexto Empírico foram publicadas em latim em 1562 e 1569, e em grego em 1621. As edições do texto de Cícero apareceram no séc. XVI. A nova publicação destas obras aconteceu numa época em que uma questão fundamental a respeito do conhecimento religioso fora levantada pela Reforma e Contra-Reforma — como distinguir o verdadeiro conhecimento religioso de perspectivas falsas ou duvidosas? Erasmo negou que isto se poderia fazer, e aconselhou seguir os céticos, suspendendo o juízo e aceitando as opiniões da Igreja Católica sobre as questões em disputa. O tradutor de Sexto, Gentian Hervet, um padre católico, disse que as opiniões dos pirrônicos constituíam a resposta perfeita e completa ao calvinismo. Se nada pode ser conhecido, então o calvinismo não pode ser conhecido. Os contra-reformistas usaram os argumentos céticos para construir uma “máquina de guerra” contra os seus oponentes protestantes, e os protestantes procuraram mostrar que os católicos destruiriam as suas próprias opiniões devido aos mesmos desafios céticos.
A mais importante apresentação do ceticismo na época foi a de Montaigne, que surgiu em Apologia de Raimond Sebond. Montaigne estudara os argumentos de Sexto e Cícero e fora influenciado por eles. Reuniu-os no seu longo e divagante ensaio e modernizou-os, adaptando-os às preocupações do séc. XVI. Também os apresentou numa linguagem vernácula (o francês), que forneceu o vocabulário para as modernas discussões sobre o problema do conhecimento.
Os desafios lançados por Montaigne aos indícios favoráveis a qualquer alegação de conhecimento, à adequação de todo o pretenso critério de conhecimento e à possibilidade de um padrão ético universal levantou dificuldades a todas as perspectivas que então estavam sendo apresentadas. A obra de Montaigne tornou-se um sucesso de vendas em França e na tradução inglesa. Juntamente com dúvidas crescentes sobre a tradição intelectual predominante, o trabalho de Montaigne estabeleceu um ceticismo geral, não apenas contra a escolástica ou o naturalismo renascentista, mas também contra a possibilidade de existir qualquer sistema de idéias que não pudesse ser posto em dúvida. O discípulo de Montaigne, o padre Pierre Charron, apresentou o ceticismo de uma forma didática que foi muito amplamente lida.
Os filósofos do início do séc. XVII tentaram formular respostas ao novo ceticismo, de modo a fundamentar teorias filosóficas modernas que pudessem justificar a nova ciência. Bacon, Mersenne, Gassendi, Descartes e Pascal, entre outros, tentaram lidar com a ameaça cética que dominava completamente o mundo intelectual.
Mersenne e Gassendi formularam, de maneiras diferentes, um ceticismo mitigado ou construtivo, fazendo grandes concessões ao desafio cético, embora ainda afirmassem que alguma espécie de conhecimento limitado era possível e útil. Mersenne, num diálogo com um cético, que retoma argumentos de Sexto, disse que embora não possamos responder os desafios fundamentais dos céticos, isso não importa porque na realidade temos maneiras de lidar com as questões. Podemos prever, a partir de uma situação empírica, o que se seguirá, embora não conheçamos as verdadeiras causas dos eventos. Podemos ter dúvidas se algum conhecimento metafísico é possível, ao mesmo tempo que desenvolvemos uma ciência que relaciona aparências com aparências.
Gassendi levou isto adiante no que denominou via media entre o ceticismo e o dogmatismo. Desenvolveu uma teoria atômica epicurista hipotética relacionando as aparências entre si. Esta forneceria uma sombra da verdade, ao invés da própria Verdade.
Descartes não queria contentar-se com esta certeza limitada. Procurava verdades que nenhum cético pudesse desafiar. Para descobri-las, começou por adotar um método de dúvida cética, rejeitando todas as crenças que poderiam, sob qualquer condição imaginável, ser falsas ou duvidosas. Rejeitou prontamente as crenças baseadas nos sentidos porque estes às vezes nos enganam. Rejeitou as crenças sobre a realidade física porque o que consideramos ser tal realidade pode fazer apenas parte de um sonho. Rejeitou as crenças baseadas no raciocínio porque podemos ser sistematicamente enganados por uma força demoníaca.
Neste ponto, Descartes parece ter criado um ceticismo maior que o de Montaigne. Mas Descartes passou a perguntar se podemos duvidar ou rejeitar a crença na nossa própria existência. Aqui descobrimos que toda tentativa de o fazer é imediatamente anulada pela nossa consciência de que, nós mesmos, estamos duvidando. Assim, a primeira verdade que Descartes alegou que não poderia ser colocada em dúvida foi “penso, logo existo” (o cogito). A partir desta verdade alguém poderia extrair o critério de que tudo o que concebemos clara e distintamente é verdadeiro. Usando este critério, estabelecemos que Deus existe, que é todo-poderoso, o criador de tudo o que existe, e que, porque é perfeito, não nos pode enganar. Portanto, tudo o que Deus nos faz acreditar clara e distintamente tem de ser verdadeiro. Assim, a nova filosofia de Descartes visa refutar o novo ceticismo.
O sistema de Descartes tornou-se o alvo principal dos céticos modernos. Foi criticado por Gassendi, Hobbes e Mersenne por se basear em dogmas injustificados e injustificáveis. Por que não poderia um Deus todo-poderoso enganar-nos? Como sabemos que não existe uma verdade para Deus ou para os anjos que é diferente da que somos forçados a aceitar como verdadeira? Por que tem de ser verdadeiro na realidade, e não apenas nas nossas mentes, o que concebemos clara e distintamente? Como sabemos que toda a nossa imagem subjetiva do mundo, por mais certeza que tenhamos, não é apenas uma ilusão nossa? Descartes respondeu que levar estas perguntas a sério era fechar a porta à razão. Mas este argumento da catástrofe não respondia realmente aos desafios céticos.
Na geração seguinte apareceram análises muitíssimo céticas das partes questionáveis da filosofia de Descartes. Pierre-Daniel Huet procurou mostrar que todas as idéias de Descartes, incluindo o cogito, estavam abertas à dúvida. Simon Foucher dirigiu um ataque similar contra Malebranche, assim que a filosofia deste foi publicada. Foucher também combateu a tentativa de Leibniz de fundar um sistema dogmático. O ceticismo do séc. XVII culminou nos escritos de Pierre Bayle, especialmente no Dicionário Histórico e Crítico (1697-1702). Bayle combinou todos os tipos de dúvidas para arruinar tanto a filosofia antiga como a moderna. Levantou devastadores desafios céticos ao cartesianismo, ao novo racionalismo de Leibniz, e a toda e qualquer tentativa do gênero. Os argumentos do Dicionário de Bayle, especialmente nos artigos sobre o cético grego Pirro de Élis e sobre Zenão de Eléia, levantaram problemas centrais à geração seguinte de filósofos.
Locke propôs uma maneira de evitar o ceticismo ao admitir que poderíamos não ter qualquer real conhecimento além da intuição e da demonstração, mas que ninguém era tão louco que duvidasse que o fogo é quente, que as rochas são sólidas, etc. A experiência anularia o ceticismo. O crítico de Locke, o bispo Stillingfleet, tentou mostrar que o seu empirismo acabaria no ceticismo. Berkeley, que recebera na sua educação os argumentos de Bayle, viu que estes se poderiam voltar contra a filosofia de Locke. Bayle já tinha mostrado que a distinção entre qualidades primárias e secundárias era indefensável. Se as secundárias são subjetivas e existem apenas na mente, as primárias também são. Berkeley insistiu sobre este ponto para levar a perspectiva de Locke ao ceticismo total. Alegou ter encontrado uma resposta ao ceticismo ao insistir que a aparência é a realidade, tudo o que é percepcionado é real.
Hume, um leitor dedicado de Bayle, desenvolveu um ceticismo mais abrangente. Nada podemos conhecer além das impressões e idéias. O nosso conhecimento causal, tudo o que nos leva para lá da nossa experiência imediata, não se baseia em qualquer princípio racional ou justificável, mas apenas numa tendência psicológica natural e inalterável para ter a expectativa de que as experiências futuras se assemelhem às que tivemos no passado. Qualquer tentativa para defender as nossas crenças inevitáveis em causas, no mundo exterior, ou num eu real constitutivo em nós, conduz ao absurdo e à contradição. Assim, somos conduzidos por qualquer investigação das nossas crenças a um ceticismo total, mas a natureza não nos deixa aí; não podemos deixar de acreditar. Assim, conclui Hume, é devido a uma fé animal que nos mantemos vivos e é ela que acalma as nossas irresistíveis dúvidas céticas.
O ceticismo de Hume foi recebido por dois tipos de respostas, que têm desempenhado importantes papéis nas teorias do conhecimento contemporâneas: a teoria realista do senso comum, de Thomas Reid, e a teoria crítica de Immanuel Kant. Reid, um contemporâneo de Hume, insistiu que embora não possamos responder aos problemas céticos formulados, ninguém realmente tem dúvidas sobre a existência de causas, do mundo externo ou interno. O nosso senso comum leva-nos a visões positivas sobre estes aspectos aspectos, e quando o senso comum entra em conflito com a filosofia, temos de rejeitar as conclusões filosóficas. Hume manifestou concordância com Reid, mas não considerou esta posição uma resposta ao ceticismo. Na opinião de Hume, esta crença forçada é um fato psicológico da vida, mas não um argumento anticético.
Kant afirmou que Hume o despertou de seu sono dogmático e o fez ver quão incertas são as nossas alegações de conhecimento. Mas insistiu que Hume tinha feito a pergunta errada. Temos conhecimento inquestionável que nos diz algo sobre toda a experiência possível, como, por exemplo, que toda a experiência será temporal e espacial. Como é tal conhecimento possível, se não podemos ir além do nosso mundo da experiência? Kant insistiu que a experiência é a combinação do modo como a projetamos e do seu conteúdo. Há formas de todas as percepções possíveis, e estas são categorias por meio das quais fazemos juízos sobre todas as experiências possíveis. Se estas correspondem a um mundo além da experiência, não podemos saber, mas podemos analisar o que podemos estar seguros quanto à experiência possível. Portanto, podemos ter algum tipo de conhecimento, mas nenhum conhecimento das coisas-em-si.
Kant propôs a sua filosofia crítica como uma maneira de resolver os problemas céticos internos à filosofia moderna. Foi imediatamente acusado de ser apenas um cético muitíssimo sofisticado, uma vez que também acaba por negar a nossa capacidade de ter conhecimento necessário do mundo. A filosofia alemã da primeira metade do século seguinte consistiu em tentativas para evitar ou superar o ceticismo implícito na análise de Kant das condições do conhecimento.
Richard Popkin
Retirado de Jonathan Dancy e Ernest Sosa (org.) A Companion to Epistemology (Oxford: Blackwell, 1997, pp. 719-721).

Bibliografia
  • Bayle, P.: Historical and Critical Dictionary, Selections, trad. R. H. Popkin (Indianapolis: Hackett, 1991).
  • Charron, P.: Toutes les Oeuvres de Pierre Charron, dernière edition (Paris: J. Villery, 1635).
  • Descartes, R.: The Philosophical Writings of Des¬cartes, orgs. J. Cottingham, R. Stoothoff e D. Murdoch, 2 vols. (Cambridge: Cambridge Uni¬versity Press, 1975).
  • Gassendi, P.: The Selected Works of Pierre Gassendi, trad. e org. C. Brush (Nova Iorque: Johnson Reprint, 1972).
  • Huet, P.-D.: Traité Philosophique de la Faiblesse de l'Esprit Humain (Amsterdam, 1723).
  • Hume, D.: A Treatise of Human Nature (1739-40), org. L.A. Selby-Bigge, ed. revista de P.H. Nidditch (Oxford: Oxford University Press, 1978).
  • Hume, D.: Dialogues Concerning Natural Religion (1779), org. R.H. Popkin (Indianapolis: Hackett, 1988).
  • Mersenne, M.: La Verité des Sciences entre les Sceptiques ou Pyrrhoniens (Paris: T. Du Bray, 1625).
  • Montaigne, M. de: “Apology for Raimond Sebond,” in The Complete Works of Montaigne trad. D. Frame (Stanford: Stanford Uni¬versity Press, 1958).
  • Pascal, B.: Selections, trad. R.H. Popkin (Nova Iorque: MacMillan, 1989).
  • Sextus Empiricus: Adversus Mathematicos . . . graece nunquam latine... org. G. Hervet (Paris: Martin Juvenem, 1569).
  • Sextus Empiricus: Outlines of Pyrrhonism e Adversus Mathematicos, 4 vols. (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1917-55).

I Encontro de Blogueiros Progressistas de SP

segunda-feira, 11 de abril de 2011

70 lições de jornalismo: como aplicar o proposto

Distanciando-se do conceito de imprensa, criado a partir de Gutenberg, o jornalismo adaptou-se, principalmente no ocidente, com a era neoliberal, onde valores morais, ideológicos e até mesmo os espirituais tornaram-se mercadoria – um processo inverso ao fetichismo marxista.
Em terras tupiniquins, com o nosso capitalismo retardado – descrito com maestria por Celso Furtado -, o jornalismo entrou no contexto mercantil e ainda está, como a maioria esmagadora da imprensa mundial. Poucos veículos tratam a informação como prestação de serviço e exercício cívico, e em nosso país não é diferente.
Um jornal é uma empresa no século XXI que consta no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), com as obrigações que qualquer corporação tem, independente do porte. Mas vale ressaltar que os jornais ainda têm espectro ideológico, porém, com outro intento, não mais filosófico como em outrora, mas mercantil, escolhendo um público-alvo e escrevendo para este.

Na atual conjuntura, seguindo a tendência do mercado – os jornais também criaram um serviço de atendimento ao consumidor, personalizado na figura do ombudsman, porém, o conceito de ombudsman transcende o conceito de imprensa e não é privilégio dos jornais.
Ombudsman: palavra de origem sueca, funcionário que, nas empresas, estabelece um canal de comunicação com os usuários ou consumidores, no verbete do filólogo Evanildo Bechara. Quanto à etimologia da palavra, o termo eclodiu em 1809, na Suécia, quando foi criado o cargo de agente parlamentar para limitar os poderes do rei, sendo este o “ombudsman”.
Teoricamente, e segundo os manuais de redação dos principais jornais do Brasil, o ombudsman é uma figura independente da redação, trabalhando, inclusive, geograficamente afastado desta. O fato que para isto existir é necessário acreditar no espírito democrático de uma instituição privada, o que é muito difícil.
O ombudsman em tempos recentes serve para externar aos diretores do jornal sobre, no dia a dia, a aceitação do público-alvo quanto ao conteúdo publicado pelo jornal. Em poucos casos ele é ouvido, cumprindo o papel de utópico em uma terra de conformados.
Mas já tivemos alguns exemplos exitosos quanto ao proposto e o praticado, e dentre estes: quero destacar o desempenho do jornalista Roberto Hirao, da extinta Folha da Tarde, atual Agora, do grupo Folha de São Paulo, da família Frias.

Durante o biênio (92-94), Hirao foi o ombudsman da Folha da Tarde, jornal que tinha a missão de ser a “cara” da cidade de São Paulo, menos politizado que o Jornal Folha de São Paulo, com uma escolha clara pela classe média baixa paulistana.
Em 2009, Hirao publicou o livro “70 lições de Jornalismo”, pela editora PubliFolha, uma coletânea de setenta colunas que escreveu enquanto ombudsman. Com críticas propositivas à redação e de certo modo independentes, em um momento muito importante do Brasil, onde o então presidente, Fernando Collor, sofreu impeachment.

Roberto Hirao fazia atendimento ao público, via telefone, além de ler minuciosamente as edições diárias dos jornais, publicando em suas colunas as reivindicações e críticas dos leitores, além das suas próprias críticas e sugestões.
Lembrando sempre aos reportes sobre a importância de validar informações e nunca confiar cegamente em qualquer fonte, exercendo um valor indispensável do jornalismo: consultar sempre mais de uma fonte.
Alertando aos redatores sobre a importância do uso da linguagem textual, do texto sem erros, fator determinante para a perda de crédito junto aos assinantes. Mas lembrando sempre que o pior erro de um jornal é a barrigada, a notícia errada.
Enquanto ombudsman, Hirao lembrava sempre da proposta inicial do jornal, a de abordar com entusiasmo o cotidiano da cidade São Paulo, dando para este maior destaque em detrimento as demais conjunturas.
Porém, sem perder o bom senso, pois sua atuação foi na época do processo que culminou no impeachment do presidente Collor, e isto era de interesse de todos os brasileiros.   
A premissa da meticulosidade era sempre lembrada nas colunas do ombudsman, onde Hirao sempre citava o trecho Manual de Redação da Folha. “Seja obsessivamente rigoroso, não menospreze os detalhes”.
Pregava a busca pela idoneidade com a seguinte afirmativa: “jornalismo é o exercício da dúvida à busca da verdade, e não da consagração de afirmativas”. Criticando qualquer tipo de viés nas matérias da Folha da Tarde.
 Defendia também em suas colunas a consolidação da identidade do jornal. “Um bom jornal destaca-se exatamente pela variedade de assuntos, mas deve definir bem sua personalidade editorial, sua linguagem e seu público-alvo, sob o risco de se tornar uma publicação híbrida”.
 Dizia que perder o valor humano do jornal era um erro imperdoável e que o jornalista deve sempre lembrar que uma vida vale muito mais que um congestionamento. Quanto à exatidão, escreveu: “jornalismo não abrevia, não arredonda, jornalismo preza pela exatidão”, sendo um grande crítico da preguiça de certos jornalistas.
Em suma, trata-se de grandes lições do jornalismo recente no Brasil, tido por muitos professores de cursos de jornalismo por todo Brasil como verdadeiras aulas de jornalismo.

Estadão e o “dinheiro fácil das centrais”

Reproduzo aqui o artigo do blogueiro e presidente do Instituto Barão de Itararé , Altamiro Borges, do Blog do Miro .

O oligárquico jornal O Estado de S.Paulo nunca disfarçou o seu ódio ao sindicalismo. Antes da consolidação do trabalho assalariado, ele publicava anúncios para a venda de escravos. Nas primeiras greves no Brasil, ele defendia a feroz repressão aos anarquistas. Já durante os governos de Getúlio Vargas, o jornal fez de tudo para derrubar o “pai dos pobres” e suas leis trabalhistas. No governo João Goulart, o diário pregou o golpe contra a “república sindicalista” e o “espectro comunista”.

                    Estadão publicava anúncios de venda de escravos


Na fase recente, embalado pelos dogmas neoliberais, o Estadão reforçou o sermão diuturno pelo cerceamento das atividades sindicais para “libertar o mercado”. O editorial de hoje (11) é mais um lance desta ofensiva. Como não dá para propor a cassação de mandatos e a prisão de dirigentes, o jornal agora defende a asfixia pura e simples do sindicalismo. Prega, abertamente, o fim da contribuição sindical, que ainda hoje é indispensável para a sobrevivência de várias entidades no país.

Visão elitista e arrogante

Na sua ótica elitista, o jornal afirma que “sem nenhum esforço, pois o dinheiro lhes é repassado automaticamente pelo governo, as centrais sindicais receberam no ano passado R$ 102,2 milhões, que gastaram do jeito que quiseram, sem se preocupar em prestar contas ao poder público... A legislação que lhes assegura o direito de apropriar-se de uma parte do salário dos brasileiros não as obriga a informar, nem mesmo aos trabalhadores que dizem representar, o que fazem com tanto dinheiro. Fazem o que bem entendem”.

A famiglia Mesquita deve, realmente, “fazer o que bem entende” com os recursos que recebem da publicidade oficial. Já os seus jornalistas, pouco afeitos à cultura sindical, deveriam madrugar nas portas de empresas, comandar assembléias, piquetes, greves e protestos públicos, enfrentar a repressão policial, participar de prolongadas negociações com patrões intransigentes. Desta experiência enriquecedora perceberiam que a prática da parte saudável do sindicalismo não é feita “sem nenhum esforço”.

Jornalismo sem seriedade

O jornal também deveria acompanhar a imprensa sindical, que regularmente publica balanços financeiros ou assistir as rotineiras assembléias de prestação de contas. Indiscutivelmente, a transparência dos sindicatos – dos engajados na luta classista – é bem maior do que a das empresas privadas. Que bom seria se a famiglia Mesquita abrisse sua contabilidade no período das negociações coletivas. Já que é contra o uso de recursos públicos, o Estadão até poderia abrir mão da publicidade de governos e empresas estatais.

Na prática, o discurso maroto do Estadão – pelo “fim dos pelegos” – visa estrangular financeiramente os sindicatos e inviabilizar a atuação das centrais. Ele revela o temor com o poder de fogo do sindicalismo. “Com o aumento do número de trabalhadores com registro em carteira e da renda real média dos brasileiros, em razão do crescimento da economia, também as receitas das centrais aumentam. No ano passado, elas foram 20,8% superiores às de 2009, quando haviam crescido 21,6% em relação ao ano anterior”.

A tática da generalização

Para encobrir a sua maldade, o Estadão sempre dá destaque para exemplos concretos de corrupção sindical. A partir destes casos – alguns deles reais, que merecerem a repulsa da sociedade –, o diário generaliza a crítica ao sindicalismo. Para ser conseqüente na sua visão generalista, o jornalão burguês deveria propor o fim do capitalismo, com a prisão dos empresários que sonegam impostos, fazem remessas ilegais de divisa, fraudam a Previdência e os direitos trabalhistas. Será que o Estadão estaria imune?

No editorial de hoje, o jornal concentra seu ataque às centrais. Até hoje, ele não engoliu a histórica iniciativa do governo Lula, que legalizou as centrais e garantiu recursos para sua atuação. Para o Estadão é um absurdo que as centrais usem este dinheiro para “realizar cursos de formação, organizar convenções ou congressos e, sobretudo, para atrair mais sindicatos, pois a distribuição do bolo do imposto sindical é proporcional ao número de entidades e de trabalhadores da base que, teoricamente, elas representam. Gastam também com passagens aéreas, hospedagens, alimentação e outras despesas de viagem”.

A quem interessa o fim da contribuição?

É para evitar estas “anomalias” que o Estadão volta à carga. “Criado na década de 1940, durante a ditadura varguista do Estado Novo, o imposto sindical é cobrado em março de todos os trabalhadores, na base de um dia de trabalho. Mudou de nome em 1966, para ‘contribuição sindical’, mas manteve suas características originais e continuou a gerar distorções... Durante o segundo mandato de Lula, as centrais foram incluídas entre as entidades habilitadas a receber uma fatia do bolo do imposto sindical”.

O editorial até registra que a CUT é contra a cobrança, mas não poupa a entidade. “A maior das centrais, a CUT, vinculada ao PT, e também a que recebe a maior fatia do bolo sindical (no ano passado, teve direito a R$ 31,9 milhões), diz-se contra o imposto sindical, mas não abre mão do dinheiro que o imposto lhe assegura”. Na verdade, o Estadão não quer a tal “autonomia sindical” e o “fim dos pelegos”. Deseja, isto sim, enfraquecer o sindicalismo. “Seria melhor para o país se acabasse esta estrutura anômala”.

O motivo da pregação é simples. Para o Estadão, o sindicalismo dificulta a exploração capitalista e “se mostrou totalmente incapaz de acompanhar as transformações no mundo do trabalho” – sofisma o jornal, que defende a flexibilização das leis trabalhistas e a precarização do trabalho. Só os ingênuos não percebem. E o Estadão nem disfarça. No texto seguinte, intitulado “desafios do envelhecimento”, ele prega abertamente a “revisão do sistema previdenciário, a começar pela idade mínima para aposentadoria”.