domingo, 15 de julho de 2012

O que é Cultura?


O termo cultura no verbete da sexta edição do dicionário Aurélio é descrito como “Ato, efeito ou modo de cultivar; o complexo dos padrões de comportamento das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidos coletivamente, e típicos de uma sociedade; o conjunto dos conhecimentos adquiridos em determinado campo; criação de certos animais”.


Cultura vem da palavra latina colo que tem vários significados: habitar, cultivar, proteger, cuidar, venerar. Foi desta palavra que surgiram outras, como colônia, colono, culto, cultivo e cultura. Segundo Raymond Willians (2007) foi no século XVI que o termo “cultura” passou a tratar do cultivo humano.  E com o passar do tempo teve algumas transformações.

Desde o século XVIII criou-se novos conceitos de cultura, a partir do Iluminismo, pois, até então, cultura era simplesmente o ato de cultivar - ligado à agricultura. O pensamento iluminista, na França, atrelou o termo cultura à civilização. 

O termo civilização, usado até então para ilustrar um estado de civitas (ordenado, educado) oposto a qualquer atitude bárbara, guinado no iluminismo francês pela crença da razão, ou seja, no século XVIII o termo cultura representava o conceito de homem civilizado, cidadão do mundo moderno.

Porém, esta definição sofreu críticas na própria França, de Rousseau, por exemplo, devido às idéias vigentes em Paris que se opunham ao ideal de civilização criado no iluminismo.

As idéias iluministas sobre cultura encontravam barreira também na Alemanha, os intelectuais alemães guinados pelo Romantismo Alemão, estavam preocupados em defender a tradição nacional, combatendo o ideal cosmopolita francês.

Cultura ou Kultur, como os alemães chamavam, passou a se relacionar com valores subjetivos e relativos, voltados para emoção, questão de espírito, opondo-se aos valores universais, tornando o termo mais íntimo. Estes novos conceitos defendidos pelos alemães visavam defender a cultura nacional, mantendo a identidade do estado alemão.

A partir disto, o termo cultura, no século XIX, começa a se relacionar com o desenvolvimento do “íntimo” em oposição ao “externo”; cultura estava então ligada às artes, religião, instituições, práticas e valores distintos e às vezes em detrimento aos ideais de civilização. No entanto, a velha idéia de cultivo agrícola permaneceu.

O pensador inglês Raymond Willians defende a idéia de que as novas concepções de cultura ligadas ao erudito iam ser válidas até o século XX, onde a Europa passa por duas grandes guerras e, a concepção de comunicação se transforma, com o desenvolvimento dos meios de comunicação em massa; a partir disso, surge a concepção de culturas ao invés de Cultura.

Segundo o sociólogo Mauricio Érnica, em seu texto “Caminhos da afirmação do patrimônio cultural”, há um erro quando a cultura é associada com erudição, pois tal concepção tende a valorar as práticas culturais, dando origem à hierarquia cultural e termos como “alta” e “baixa” cultura, ou ainda “culto” ou “inculto”, neste ponto de vista haveria pessoas e grupos com mais e menos “cultura”, sendo que as práticas culturais letradas e mediadas pelas instituições educacionais seriam cultas por oposição às práticas culturais da tradição oral, especialmente dos grupos populares.

Érnica destaca três modos de cultura, o primeiro refere-se ao cultivo do humano, a idéia refere-se ao desenvolvimento intelectual, espiritual e estético do homem, através da sociedade, onde o homem absorve tudo o que vive (vê, sente), e expressa por formas simbólicas (intelectual), neste caso existe a classificação cultural, portanto, termos como “alta” e “baixa” cultura, assim como “culto” e “inculto” são utilizados neste modo.

O segundo modo retrata a cultura e rompe com a hierarquia e divisão, imposta no primeiro modo, neste caso cultura passa a se referir ao modo de vida do homem, abrangendo assim todas as formas e expressões culturais, sem rotular nenhuma delas.

O terceiro modo abrange características dos dois anteriores, do segundo mantém a idéia que todo grupo humano tem sua cultura, do primeiro mantém a idéia de que a cultura é representada pelas formas simbólicas (intelectuais) de cada grupo, sendo assim este modo a restringe (cultura) para determinadas dimensões sociais.

Em suma, as concepções usadas pelas ciências sociais, quanto à cultura, são recentes e boa parte delas estão em processo de fundamentação.