O nosso vandalismo de cada dia
Nas manifestações de junho, dezenas de centenas de
milhares de pessoas estiveram nas ruas das principais cidades brasileiras.
Ainda não se sabe quais serão os reais impactos políticos que teremos, pois
muitas coisas foram faladas e algumas, infelizmente, estão com dificuldades de
sair do plano das ideias.
O principal argumento governista-palaciano quanto
às críticas deu-se pelo chamado vandalismo. Descreveram sob tal conceito as
ações de depredações que alguns grupos fizeram a prédios públicos e
instituições privadas.
Mas em quais circunstâncias o chamado vandalismo
pode ser encarado como algo negativo? Quando uma população ataca agências
bancárias – representação maior do capitalismo – a crítica de esquerda ainda
sim deve considerar tais ações maléficas?
O conceito de vandalismo vem do fato histórico do
povo germânico, denominado Vândalo, que invadiu Roma e depredou obras
arquitetônicas e de arte. Sendo assim, ficou denominado de vandalismo tudo
aquilo que agredisse o belo nas cidades.
Na história das guerras, a destruição de
monumentos públicos significa conquista. Um fato histórico interessante está no
movimento da Comuna de Paris, que tentou desmantelar uma coluna da Place
Vendôme, símbolo do poder de Napoleão. Nietzsche, dado a este fato, denominou a
Comuna como um atentado à cultura.
Quando prédios públicos que simbolizam o poder de
determinada classe na ordem do estado são atacados, de fato é uma ação que
ataca a democracia? Quando o Itamaraty foi atacado, um líder comunista
reivindicou a defesa do prédio por abrigar diversas obras de arte. De fato,
atacar tal prédio é uma afronta à democracia brasileira?
Na consciência marxista mais clássica, a luta de
classes está em vigor, por isso o vandalismo não pode ser encarado como
ferramenta de tentativa de dominação da classe mais baixa?
Um ponto a ser defendido neste artigo são as diversas
formas que o chamado “vandalismo” ocorreu. De fato, em momentos de mobilização,
a direita brasileira usa de seu udenismo mais clássico - infiltrando pessoas
dentre os manifestantes para tumultuar quando quem está no governo é uma força
originária da esquerda.
Isso pôde ser visto em São Paulo, quando um
estudante de arquitetura da USP, filho de um empresário do transporte público
de São Paulo, chutou os portões da prefeitura, cujo o prefeito é um intelectual
habermasiano de esquerda, professor da mesma universidade, ex-ministro da
educação do governo Lula e filiado ao Partido dos Trabalhadores.
Também foram identificados punks e membros de
forças anarquistas, principalmente no Rio de Janeiro, que encaram o estado como
força a ser combatida independente de quem esteja no poder, defendem o fim desta
força central de maneira abrupta e acreditam nesta forma de atuação.
Mas não são tais modos de atuação que quero
analisar, mas aquilo que considero como mais natural, ou seja, jovens da
periferia que atacaram prédios públicos nos centros urbanos por não se sentirem
representados pelos mesmos. Em junho, no Facebook, jovens da periferia
paulistana informaram que se fossem ao centro, algo iriam quebrar referindo-se às estruturas
simbólicas do poder.
A psicanálise tem na psicologia social, uma área
de estudos que aborda a representatividade social. Neste campo, podemos tentar
entender os motivos que fazem um jovem da periferia não se sentir representado
pelas estruturas mais clássicas dos centros urbanos brasileiros.
Tomando com exemplo um jovem da zona leste
paulistana, tomado pelo desejo de agredir o poder, que estava no centro de São
Paulo na maior manifestação que ocorreu na capital paulista no mês de junho,
quando chegou à concentração que estava acontecendo em frente ao teatro
municipal. Por que ele deveria ter zelo pela estrutura?
Quantas vezes ele já esteve dentro daquele teatro?
A forma arquitônica representa sua cultura? Por que ele nutre raiva pelos
prédios públicos mais belos? Sua agressão não é um fato da luta de classes? A
esquerda não comete o erro de Nietzsche quando acha que a agressão é um mero
ataque à cultura?
Um governo de esquerda deve ocupar todos os
prédios públicos para que o povo tome posso deles, caso contrário sempre estará
distante da massa geograficamente e ideologicamente pela arquitetura, também.
Achei muito interessante a sua visão sobre os protestos e o vandalismo. Nem todo protesto é vandalismo e se assim fosse, nem todo "vandalismo'( palavra forte e restrita demais ao meu ver para o contexto) é terror.
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