segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Ponte Torta: a importância do restauro de um bem fora da vida prática



"As idéias que as ruínas me despertam são grandes. Tudo se aniquila, tudo perece, tudo passa. Só fica o mundo. Somente o tempo perdura. Como é velho este mundo! Caminho entre duas eternidades. De qualquer parte para onde lanço o olhar, os objetos que me rodeiam me anunciam um fim e me resignam àquele que me espera. Que é minha existência efêmera, comparada à deste rochedo que se alui, à deste vale que se cava, desta floresta que flutua, dessas massas suspensas acima de minha cabeça e que se abalam? (...) Uma torrente arrasta as nações umas sobre as outras para o fundo de um abismo comum; eu, eu só, pretendo parar na margem e atravessar a corrente que corre a meus lados!"

Denis Diderot, Salons (1767)

“Atlântida! Atlântida!

Onde estão agora as florestas, as torrentes caudais, as cidades, os reinos? Onde os homens, os rebanhos, as feras? Monumentos, grandeza, poderio, exércitos, ciências, e as gloriosas artes? Onde jaz sepultado o gênio humano, fertilizador das regiões desaparecidas? Que é feito das próprias ruínas? Como foram consumidos os venerandos restos da arquitetura – fustes truncados, capitéis caídos? E os túmulos? as ossadas dispersas, que vão ficando das gerações no roteiro dos séculos? A própria morte morreu. E as montanhas, que suspeitávamos eternas, na audaciosa majestade da pedra, familiares entre a águia e o raio, como Júpiter Deus?!"

Raul Pompéia, Os continentes. In: Canções sem metro (1900)

Uma das grandes mazelas da era do pensamento industrial foi ter constituído ao homem a necessidade de levar tudo à vida prática, pois qualquer coisa que não tiver uma função de utilidade entra em descrédito na mente do homem moderno, haja vista que, na sociedade industrial, só se valoriza aquilo que é produtivo e não se reconhece outras vontades humanas, colocando a contemplação e qualquer valor mais subjetivo no campo do contingente, renegando seu valor no necessário.

Assim, podemos ver a simples análise daqueles que não entendem o restauro de uma ponte que, atualmente, não leva “nada” a “lugar nenhum”, pois com a alma adormecida, o valor do simbólico fica difícil de ser identificado. Como alguém preso à mera necessidade prática vai entender a necessidade de uma ponte onde não passam carros, veículos de transporte coletivo e pessoas?

Uma ponte que não podemos afirmar ao certo a data de sua fundação, mas que marca o período da ascensão ferroviária, no qual Jundiaí é o berço no interior paulista. Teve uma vida curta para o fim que motivou sua construção pela Cia. Paulista Carril Jundihyana, pois durou pouco mais de três anos como meio de transporte do bondinho.

Quando o Rio Guapeva ganhou tamanho, fato que obrigou a reformulação da Ponte Torta, ela quase sumiu, mas alguns lutaram e ela ficou. Ganhou um bloco de concreto que garantiu sua estabilidade, foi inúmeras vezes pixada e virou o recanto favorito por décadas dos pombos que moram no Vianelo.

Neste domingo (13), a Prefeitura Municipal de Jundiaí inaugurou a Praça Erazê Martinho e apresentou a Ponte Torta restaurada e reformulada como um monumento pronto para ser apreciado pelos cidadãos. Sempre foi um monumento, mas agora está com uma estrutura para que todos aproveitem.

Trata-se de um espaço que em breve se tornará um grande lugar cultural, pela localidade. Já podemos dizer que é um recanto forte de apresentação do passado para o desfrute do presente e harmonização para o futuro. É importante ressaltar que as obras de restauro e construção da praça vieram com recurso de contrapartida após o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) de um empreendimento na mesma região.

Pois bem, muitos insistem em não entenderem a razão do restauro da Ponte Torta, por olharem com a alma adormecida, não compreendendo o apego da população do Vianelo, do reconhecimento que todos jundiaienses têm com aquele ponto que “não leva ninguém a lugar nenhum”.

Não conseguem refletir no campo do simbólico, entender a questão afetiva e preferem mais chafarizes destoados -  como o que está na Avenida Nove de Julho. O chafariz com suas rochas falsas é um não lugar, a Ponte Torta é um lugar. Acorde a sua alma e aproveite.

           
BIBLIOGRAFIA
HARDMAN, Francisco Foot. Brutalidade antiga: sobre história e ruína em Euclides. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 1996.

CULTURAL, Patrimônio Histórco. Ponte Torta. Disponível em: http://patrimoniohistorico.jundiai.sp.gov.br/centro-historico/ponte-torta/

Nenhum comentário:

Postar um comentário